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  1. Žižek, o comunista pop

    25 de maio de 2011

    Não poderia imaginar que aquele senhor excêntrico e agitado, com tiques que deixam qualquer um nervoso, teria tanto a me dizer. O escritor esloveno Slavoj Žižek, o mais pop dos teóricos do comunismo contemporâneo, esteve no Rio ontem e fui conferir. Com duras posições sobre a sociedade materialista, “que transforma tudo em commoditties”, Slavoj foi sensato ao revelar as ideologias que impregnam todas as esferas do capitalismo atual. Separei alguns momentos da palestra com o objetivo de divulgar o lançamento de dois de seus livros (Primeiro como tragédia, depois como farsa e Em defesa das causas perdidas), que aconteceu no cine Odeon, Cinelândia, Centro do Rio.

    ECOLOGIA – O filósofo marxista se recusa a utilizar o termo da moda, sustentabilidade, para falar do tema tão em voga atualmente. Em seu discurso prefere falar em Ecologia, palavra que foi bastante difundida quando começou a onda “verde” mais fortemente na década de 70. Ele afirma que a ideologia por trás da Ecologia é a necessidade capitalista e individualista de “se livrar da culpa”. “Quando uma pessoa não usa um copo de plástico faz isso para suprir uma necessidade individual de se sentir bem. Dizer ‘fiz a minha parte e que se dane o resto’ não é enfrentar de fato o problema. É apenas um paliativo para resolver uma situação que vai muito mais além”.

    UM CAFÉZINHO NA STARBUCKS – Ao falar da prática capitalista de “tornar tudo um commodittie”, Slavoj conta o exemplo da maior rede de cafeterias do mundo, que vende “os cafés mais caros do mundo”. “A Starbucks diz ‘este café é o mais caro porque 1% do seu valor vai para as crianças famintas na Guatemala, outro 1% para o projeto de caridade tal’, e você acaba engolindo aquilo sem questionar”, atenta, esclarecendo que na verdade estão repassando para nós o preço desta falsa filantropia.

    SEXO NO CINEMA – Também crítico de cinema pelo qual se mostra um apaixonado, a todo o momento Žižek dá exemplos de filmes para falar de suas teorias. Por exemplo, o último filme de James Bond, que segundo ele, foi o único da série em que não houve no final sexo entre Bond e a “Bondgril” (não necessariamente a cena de sexo, mas sua insinuação). “Está implícito nisso a ideologia da segurança. Até o amor deve ser seguro. Você pode se apaixonar mas sem ser arrebatado por essa paixão. É uma paixão fria, racional, como tudo o que precisamos ser segundo a lógica capitalista”. Ele também aponta a omissão do sexo nos filmes Código da Vinci e Anjos e Demônios, ainda que nos livros de Dan Brown o sexo seja narrado.

    FINAL - Terminando a palestra, Slavoj usa - acredito que propositalmente - o termo 'inimigo' para alertar para os enganos da busca por segurança, ideologia principalmente difundida pelos americanos diante da falsa ameaça do terrorismo. "Tente ler as entrelinhas por trás das coisas que se passam a todo o momento. Não deixe que o 'inimigo' consiga te fazer pensar que este é o caminho natural das coisas..."
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  2. A lista nacional

    16 de maio de 2011

    A lista nacional começa com Meu Tio Matou Um Cara, que não está na minha seleção por causa da sempre boa atuação de Lázaro Ramos, no papel do tio “assassino”. Nem por ter a sempre seminua Débora Secco no papel da namorada do tio. Mas sim por ter uma historinha pano de fundo de um amor adolescente, desses que a gente sente saudade, entre Duca, vivido por Darlan Cunha – o Laranjinha, e Isa, vivida por Sophia Reis. A trilha sonora, assinada por Caetano Veloso, se encaixa perfeitamente ao clima do filme. Na mesma linha adolescente, vale muito a pena As Melhores Coisas do Mundo. Ver este filme, que tem no elenco Denise Fraga brilhante e quebrando ovos (quem viu sabe do que estou falando!), foi uma prazerosa volta aos meus tempos de escola.

    O Homem Que Copiava, tem de novo Lázaro Ramos no papel principal, vivendo André, um operador de Xerox que quer impressionar Silvia (Leandra Leal). Acaba se envolvendo com Luana Piovani (a sedutora Marinês) e Pedro Cardoso (Cardoso) num esquema de falsificação de dinheiro. O diferente nesse filme é o fato de ter um herói fora dos padrões do “bom-moço”. Acabamos torcendo para que ele saia impune das falcatruas e até para que consiga assassinar uma pessoa. Atualização do anti-herói da literatura.

    Bicho de Sete Cabeças revelou o grande ator Rodrigo Santoro na pele de Neto, um jovem que é internado em um hospital psiquiátrico depois que seu pai descobre um cigarro de maconha em suas roupas. No tal hospital o jovem passa por “tratamentos” dignos de torturas da idade média. O filme tem ainda Cássia Kiss no papel da mãe de Neto, e Gero Camilo, engraçadíssimo encarnando o interno Ceará. É “político” por tratar abertamente da questão dos manicômios e, ao mesmo tempo, “sensível” ao tocar sem pudores nas dificuldades do relacionamento familiar. Sem falar na música tema do filme do Zeca Baleiro.

    Elegi Cidade de Deus e Carandiru como os dois exemplos de filmes que tratam da questão social brasileira. O primeiro mostrou ao mundo, pela primeira vez, as entranhas do crime organizado no Brasil. E fez isso num ótimo thriller de ação. O segundo é um exemplo de boa adaptação de livro para o cinema. No caso, o livro Estação Carandiru de Dráuzio Varella, sobre o tempo em que foi médico no presídio paulista que seria palco da maior chacina do sistema prisional brasileiro.

    O Brasil também sabe fazer bons romances. É o que provam dois exemplares nacionais do gênero: Pequeno Dicionário Amoroso e Amores Possíveis. E os dois filmes trazem sacadas inteligentes para falar de amor, tema tão batido nos cinemas. Pequeno Dicionário Amoroso, com Andréia Beltrão e Daniel Dantas vivendo o par romântico, fala das várias fases de um relacionamento de A a Z. Já Amores Possíveis tem como ponto de partida um desencontro entre os personagens de Carolina Ferraz e Murilo Benício. A partir daí são contadas três histórias com os diferentes rumos que este desencontro poderia ter tomado.

    Fernanda Montenegro dispensa apresentações. Infelizmente não conheço toda a sua filmografia, até pelo fato de ser um ainda jovem interessado no cinema nacional. Mas três dos recentes filmes desta atriz não poderiam deixar de fazer parte da minha lista: Central do Brasil, o ganhador do Oscar, O Outro Lado da Rua, em que temos o privilégio de vê-la vivendo um par romântico de terceira idade com Raul Cortez, e Casa de Areia, que mostra que o talento pode estar no DNA, já que divide a cena com a filha Fernanda Torres.

    Quando escreveu, em 1955, a peça teatral em forma de auto, Ariano Suassuna, não imaginaria que O Auto da Compadecida faria sucesso nas telas de cinema do Brasil. Engraçado demais este filme. Atuações fora de série. Matheus Nachtergale vive o aproveitador João Grilo, Selton Mello é o covarde e mentiroso Chicó, Marco Nanini é o cangaceiro Severino de Aracaju, Fernanda Montenegro encarna a Compadecida entre outros artistas de peso... Não sei, só sei que foi assim.

    Como já disse antes, quando o cinema e a música se complementam, o filme não pode ser ruim. É assim em Os Desafinados, que tem como pano de fundo a história da Bossa Nova, com suas belas canções de amor, humor e poesia. O elenco tem Rodrigo Santoro, Alessandra Negrini, e uma das melhores atrizes brasileiros na minha opinião, Cláudia Abreu. (Por falar em música e Cláudia Abreu, outro filme bom de se ver é O Caminho das Nuvens, que tem as músicas de Roberto Carlos embalando a trajetória de uma família retirante nordestina).

    No quesito documentário, Faixa de Areia é um ótimo filme que fala sobre as praias do Rio. Os documentaristas vão desmontando o pensamento coletivo lugar comum de que “a praia é o lugar onde todo mundo se mistura”, “na praia não tem preto, branco, pobre, rico”. Apresentam as segregações culturais e sociais que existem ao percorrerem o litoral carioca, abençoado por belas e diferentes praias. A diversidade convive no mesmo espaço, mas nem por isso ela deixa de existir.

    Muito Gelo e Dois Dedos D’água foi indicado pela amiga blogueira Clara Del Vale. É a história, regada a drogas lícitas e ilícitas, de duas irmãs que armam uma vingança para a avó megera, vivida por Laura Cardoso. Neste filme percebi que Mariana Ximenes e Thiago Lacerda sabem atuar. Como a Globo pode limitar um ator não é mesmo? A bela atriz vive uma jovem perturbada e traumatizada pelas torturas psicológicas promovidas pela avó. O galã mostra que sabe ser engraçado e vive um tipo desajeitado e tapado, marido de Paloma Duarte, a outra irmã traumatizada. Os desenhos que formam os flashbacks da infância das irmãs são bem utilizados. Muito Bom.
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