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  1. Os direitos HUMANOS são os nossos

    30 de novembro de 2010

    Não falar porque todo mundo tá falando não é do meu feitio. Não sou do contra. Aliás sou a favor. Morador do Rio cinco dias da semana, mais atualmente na Cidade Maravilhosa do que na do Aço (meu endereço de correspondência), aqui onde os acontecimentos viraram o centro das atençõe na semana que passou.

    Não dá pra não dizer que é bom andar na cidade com a sensação de que está melhorando. Eu que passei por uma van e um ônibus carbonizados nas minhas andanças vi de perto do que o crime (des)organizado é capaz. Encurralados eles tentaram, mas a resposta das autoridades, polícia, COMUNIDADE, imprensa foi, pela primeira vez, unísona. Todos tinham o mesmo objetivo que, por isso mesmo, foi alcançado.


    "Eu vou à cidade hoje à tarde
    Tomar um chá de realidade e aventura
    Porque eu quero ir pra rua
    Eu quero ir pra rua
    Tomar a rua"

    Dura a realidade de quem não tinha o direito básico de ir e vir nessa aventura que é morar por aqui. Tomou a rua a unanimidade de que não queríamos mais ficar trancados dentro de nossas próprias casas, vendo a vida passar pelo noticiário.

    Passaram pela minha cabeça os mais diversos sentimentos e pensamentos. Dos mais radicais - a revolta que me fazia dizer: "tem que matar todo mundo". Aos mais politicamente corretos sobre a degradação social e blá,blá,blá.

    "Não mais
    Não mais aquela paúra
    De ser encarcerado pra ficar seguro

    Já cansei de me trancar
    Vou me atirar
    Já cansei de me prender
    Quero aparecer
    Aparecer, aparecer
    Aparecer"

    Precisava sair de casa na quinta feira, dia do início do cerco ao Alemão, para fazer uma compra indispensável para sexta-feira. Fui recomendado por todos - amigos, televisão, namorada, anjinho na orelha direita e diabinho na esquerda. Mas contrariei todo mundo e fui pra rua, tomar a rua. Voltei são, afinal não era como eles dizem na TV - não era violência generalizada.

    "Eu sou da cidade, e a cidade é minha
    Na contramão do surto de agorafobia
    Agora eu quero ir pra rua
    Porque eu quero, quero ir pra rua

    Levar
    A dura de cada dia
    Sair da minha laia, chegar na sua"

    Levamos a nossa dura de uma semana, mas no final tudo acabou relativamente bem. Ainda há muito pra fazer. Mas os acontecimentos finalmente mostraram que a sociedade tem que estar do lado certo. Nesse caso existe sim um lado certo. Afinal os direitos humanos são (primeiramente) os nossos, nós trabalhadores, pais e mães de família, estudantes, enfim todos que levamos a vida dignamente, dentro da legalidade e com o mínimo de respeito ao espaço do outro.

    "Eu vou à cidade sem compromisso
    Tomar um chá, um chá de sumiço no olho da rua
    Porque eu quero ir pra rua
    Eu só quero ir pra rua
    Olhar a rua

    Tomar, bem que se podia ar fresco
    Topar Banksy a pintar afrescos"

    * Com letra de Eu quero ir pra rua (Paula Toller/Coringa)
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  2. Os Restos Mortais da Manchete

    15 de novembro de 2010





    Da série "Sempre na estrada", um interessante achado. Alguém se lembra da falecida rede Manchete de televisão? Pois é, numa pequena loja de Antiguidades às margens da BR-465 (antiga Rio-São Paulo), encontrei o antigo módulo metálico do "M" da extinta rede de televisão. A programação da Manchete foi ao ar em Junho de 1983 (inauguração da Rede Manchete) e deixou de ser exibida em Maio de 1999 (data em que a emissora trocou de nome passando a se chamar Rede TV!).


    Módulos como este foram utilizados nas vinhetas da emissora, que na época não contava com computação gráfica avançada e precisava fazer objetos reais, e usava a tecnologia do cromaqui (o famoso fundo azul ).

    Abaixo a imagem do mesmo letreiro no antigo estacionamento da empresa no complexo de Água Grande, no Rio de Janeiro, retirada do site http://www.redemanchete.net/ (recomento o site pra quem gosta da história da mídia brasileira).

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  3. É preciso tomar partido

    6 de outubro de 2010


    Por que votarei em Dilma Rousseff *

    por Celso Barros

    Os três principais candidatos nessa eleição presidencial são muito bons. A terceira colocada deve ser Marina Silva, e Marina Silva seria melhor presidente que 90% dos presidentes do mundo. Levando em conta só os competitivos, nos últimos dezesseis anos só Garotinho (que a The Economist traduzia como “Little Kid”) avacalhou nosso currículo, onde, na minha modesta opinião, devemos ter orgulho de ostentar Lula e FHC.

    Mas é preciso escolher, e, no que se segue, argumentarei que a melhor opção para o Brasil no momento é uma ex-guerrilheira nerd.

    1.
    Um bom governo, na minha opinião, deve (a) ser democrático, (b) não avacalhar a estabilidade econômica, e (c) combater a pobreza e a desigualdade. Por esses critérios, o governo Lula foi indiscutivelmente bom.

    O governo Lula, tanto quanto o governo FHC, foi um governo democrático. Quem lê jornal no Brasil não apenas percebe que é permitido falar mal do governo, mas pode mesmo ser desculpado por suspeitar que falar mal do governo é obrigatório por lei. Os partidos de oposição atuam com plena liberdade, os movimentos sociais, idem, e, aliás, eu também. O Olavo de Carvalho se mandou para os Estados Unidos, dizem que com medo de ser perseguido politicamente, mas, se tiver sido por isso, foi só frescura. De qualquer modo, nunca antes nesse país exportamos tantos Olavos de Carvalho.

    A economia foi muito bem gerida durante a Era Lula, a despeito do que falam muitos petistas (talvez preocupados com a falta de oposição competente). Companheiros, deixemos de falar besteira: a política econômica foi um sucesso. Mantivemos o bom sistema de metas de inflação implantado por Armínio Fraga no (bom) segundo governo FHC, e acrescentamos a isso: uma preocupação quase obsessiva por acumular reservas internacionais, a excelente ideia de comprar de volta nossa dívida em dólar, e medidas de incentivo fiscal quando foi necessário. A dívida como proporção do PIB caiu consideravelmente, e só voltou a subir quando foi necessário combater a crise. Certamente voltará a cair já agora.

    Por essas e outras, fomos os últimos a entrar e os primeiros a sair da maior crise econômica desde 1929. Os tucanos se consideravam uma espécie de Keynes coletivo por terem sobrevivido à crise do México. Com muito menos custo, sobrevivemos à crise dos EUA. E isso se deu porque a economia durante a Era Lula foi muito mais bem administrada do que durante o primeiro governo FHC. No segundo governo FHC, aí sim, a economia foi bem gerida, e Lula fez muito bem em copiar seus métodos de gestão.

    E, na área social, o Lula realmente se destaca na história brasileira, e na conjuntura econômica mundial. FHC não merece nada além de parabéns por ter copiado o Bolsa-Escola do governo petista do Distrito Federal (cujo governador havia idealizado o programa ainda na década de 80), e o PT merece críticas por ter atrasado sua adoção insistindo no confuso “Fome Zero” por tempo demais; mas, uma vez re-estabelecida a sanidade, o programa foi implementado com imenso sucesso, e, associado à política de recuperação do salário mínimo, e à boa gestão da economia, geraram resultados que não estavam nas projeções do mais otimista dos petistas em 2002. Para ser honesto, eu sempre votei no Lula, mas nunca achei que fosse dar tão certo.

    A pobreza caiu algo como 43%. Vou dizer com palavras, para não dizerem que sou cabeça-de-planilha: a pobreza no Brasil caiu quase pela metade. Rodrigo Maia, escreva essa frase no quadro cem vezes. Mais de 30 milhões de pessoas (meia França, não muito menos que uma Argentina inteira) subiram às classes ABC. Cortamos a pobreza extrema pela metade (mas ainda é, claro, vergonhoso que tenhamos pobreza extrema). A desigualdade de renda caiu consideravelmente: a renda dos 10% mais ricos cresceu à taxa de 3 e poucos % na Era Lula, enquanto a renda dos mais pobres cresceu mais ou menos 10% ao ano, as famosas taxas chinesas. E tem uns manés que acham que os pobres votam no Lula porque são ignorantes ou mais tolerantes com a corrupção. Dê essas taxas à nossa elite e o Leblon inteiro tatua a cara do Zé Dirceu.

    Não é à toa que o economista Marcelo Neri, um dos mais respeitados estudiosos da pobreza no Brasil, fala no período de 2003-2010 como “A Pequena Grande Década”. Tanto quanto sei, Neri não é petista.

    Por outro lado, há algumas semanas, o sociólogo Demétrio Magnoli escreveu um balanço crítico do governo Lula, que considera um desastre. O artigo praticamente não tem nenhum número. I rest my case.

    2.
    Seria idiota dizer que isso não é, em nenhum grau, motivo para votar na Dilma. Dilma participou ativamente disso tudo, e, no mínimo, apoiou isso tudo. Marina Silva, é verdade, apoiou quase tudo isso. José Serra não o fez, e muitos de seus simpatizantes continuam convictos de que os últimos oito anos, em que a renda dos brasileiros mais pobres cresceu no ritmo da economia chinesa, foi uma era das trevas da qual a nossa elite bem pensante (hehehe) acordará em breve, chorando de felicidade porque era só um pesadelo.

    Mas, até aí, eu considero que a Era FHC também foi boa para o país, por outros motivos, e mesmo assim foi bom que Lula fosse eleito em 2002 (como irrefutavelmente provado acima). Por que não seria esse o caso, agora?

    Em primeiro lugar, porque não acho que será bom para o Brasil se o governo Lula tiver sido só um intervalo. Se Serra ganhar a eleição, eis o que se tornará a versão oficial sobre esse período: uns caras com diploma governavam muito bem o Brasil por muitas décadas, aí surgiu um paraíba muito carismático que acabou % ganhando a eleição, mas não fez nada demais, por isso eventualmente a turma do diploma retomou o controle da coisa toda. Coloquei um sinal de porcentagem no meio da frase para que ela tivesse pelo menos um erro que não fosse também papo furado.

    É importante compreender que os novos atores que compõem o PT vieram para ficar, pois são sócios-fundadores de nossa democracia, e que, de agora em diante, o Brasil é um país com uma esquerda que sabe ser governo. Isso quer dizer que agora a direita, para vencer eleições, precisa apresentar boas candidaturas (de preferência sem roubar nossos sociólogos, ou economistas heterodoxos) e, o mais crucial de tudo, apresentar propostas para os mais pobres, que acabam de descobrir que podem melhorar imensamente suas vidas com o voto. A direita brasileira ainda não fez esse trabalho: continua pensando como se fosse um direito natural seu governar o país, e esperando que algum movimento legitimista re-estabeleça a ordem nesta budega.

    Enquanto a justiça eleitoral não fizer o voto do Reinaldo Azevedo ter peso 50 milhões, a estratégia de fingir que o governo Lula não desmoralizou os anteriores, diminuindo a pobreza sem desestabilizar a economia, não vai ganhar eleição. Enquanto não tiver um projeto para o país (o que, diga-se, o Plano Real foi), a oposição não merece voltar ao governo. Como o PT dos anos 90, por exemplo, não merecia ganhar a presidência, pois seu programa era o que, no jargão sociológico, era conhecido como “nhenhenhém”. O PT venceu quando reconheceu que o papo agora era outro, e era preciso partir das conquistas já alcançadas. Não há sinal que consciência semelhante exista na oposição como bloco político, embora, sem dúvida, o candidato Serra o tenha compreendido.

    3.
    Mas esse tampouco é o melhor motivo para se votar na Dilma. O melhor motivo para se votar na Dilma é a Dilma.

    Dilma tem uma trajetória política muito singular, como, aliás, tinham FHC e Lula. Quem tiver lido seu perfil recente** na revista Piauí pode notar que há tantos fatos interessantes na sua vida que o jornalista mal teve espaço para falar dela, como pessoa. Dilma foi guerrilheira, foi torturada, e, durante a democratização, entrou para o PDT. Quando visitou, recentemente, o túmulo de Tancredo, a turma de sempre reclamou que o PT não o havia apoiado no Colégio Eleitoral. Bem, Dilma, como o PDT, apoiou Tancredo. Eventualmente, foi parar no PT, onde cresceu fulminantemente, e foi beneficiada pela decisão da oposição de queimar um por um dos quadros petistas mais famosos, algo pelo que, suspeito, já começam agora a se arrepender. Estariam pior agora se o candidato do Lula fosse, digamos, o Dirceu?

    Tem gente que, com temor ou esperança, acha que Dilma mudará o rumo da economia. Eu posso estar errado, mas, baseado no que vi até agora, acho o seguinte: Dilma está singularmente posicionada para fazer com que, sob essa mesma política econômica, e com o mesmo compromisso com a justiça social, o país comece a crescer bem mais rápido do que cresceu nos últimos dezesseis anos.

    Eu gosto de dizer o seguinte sobre política econômica: é verdade, o Banco Central desacelera o crescimento quando mantém os juros altos (e segura a inflação). Mas, a essa altura, o crescimento econômico já levou uma surra; antes de chegar no Banco Central, o carro do crescimento já tomou batidas da nossa falta de política de inovação, da baixíssima capacidade de investimento do Estado, da pobreza (que diminuiu, mas, para nossa vergonha, ainda está aí), do nosso abissal nível de qualificação educacional, dos entraves inacreditáveis para se abrir ou fechar um negócio, dos problemas gravíssimos da nossa urbanização. Essa desacelerada que o Banco Central dá é porque, depois de tomar tanta batida, ou nosso carro desacelera ou ele desmonta na pista.

    Nossa visão deve ser a seguinte: queremos ter produção tecnológica como a Índia, mas com muito mais preocupação com a justiça social, e queremos ter o crescimento da China, mas com a mais absoluta democracia e com as garantias ambientais necessárias. Se esses limites nos atrasarem um pouco, paciência, somos, em nossos melhores momentos, um país que leva essas coisas a sério. O que não é admissível é que qualquer coisa que não nossos princípios atrase nosso progresso.

    Muita gente diz que Lula entregou a candidatura à Dilma de mão-beijada, mas, aproveito para advertir, muita calma nessa hora, meu povo. Lula também lhe entregou uma roubada incrível, que foi também um teste. Quando Dilma foi colocada na direção do PAC, experimentou em primeira mão o quão ineficiente é nosso Estado como indutor do investimento: uma legião de entraves burocráticos, pressões políticas e uma história de más prioridades tornaram nosso Estado incapaz de investir e de oferecer infra-estrutura (tanto física quanto legal quanto humana) para o investimento privado.

    A beleza da coisa é que Dilma é uma c.d.f. obcecada por políticas públicas. Quem leu sua entrevista no livro organizado pelo Marco Aurélio Garcia e pelo Emir Sader não pode ter deixado de se divertir com a diferença entre as coisas que os entrevistadores querem perguntar e as coisas que ela quer responder: os caras lá falando do liberalismo, de não sei o que mais, e ela animadona com um jeito de furar poço de petróleo, com um jeito qualquer de administrar hospital. Respeito muito o Marco Aurélio, que foi meu professor, mas a Dilma sai da entrevista muito melhor que ele e o Sader.

    Me anima especialmente que, em vários momentos, tenha visto Dilma puxando o assunto das políticas de inovação. O Brasil não vai dar um salto qualitativo em termos de desenvolvimento enquanto não produzir tecnologia. Tecnologia é o tipo de coisa que depende de bons arranjos entre governo e setor privado, e, a crer nos relatos até agora a respeito de sua passagem pelo ministério de Minas e Energia, Dilma tem uma postura pragmática saudável nessas questões.

    Lula deu ao capitalismo brasileiro milhões de novos consumidores, e essa descendência política exigirá de Dilma compromisso forte com a inclusão social. Mas agora é hora de dar ao capitalismo brasileiro a competitividade necessária para que ele gere os empregos de que precisam os novos ex-miseráveis, os formandos do ProUni, ou das novas Universidades Federais, inclusive; é hora de montar um Estado que entregue aos cidadãos as cidades necessárias à boa fruição da vida moderna, e montar um sistema de inovação tecnológica que tire da direita o monopólio do discurso moderno.

    Por conhecer melhor do que ninguém o tamanho desse déficit, e pelo que se depreende de sua postura até agora diante desses problemas, Dilma Rousseff é a melhor opção para a presidência do Brasil nos próximos oito anos.

    Até porque, contará com um recurso que só o PT tem: uma imprensa tão hostil que o sujeito realmente, realmente tem que prestar atenção para não fazer besteira. Superego é uma coisa útil, senão você trava.

    4.
    Certo, mas deve ter gente pensando, ah, mas ela é só uma tecnocrata, vai ser engolida pelos políticos (o bom é que essa mesma turma dizia que o Lula, por não ser um tecnocrata, ia ser engolido pelos políticos). Deve ter gente, à direita e à esquerda, com esperança de manipular a Dilma. A Dilma, no caso, é aquela menina que, aos vinte e poucos anos, inspirava respeito até nos caras do Doi-Codi, como se depreende dos documentos da época. Se quiser ir tentar manipular essa dona aí, rapaz, boa sorte, vai lá. Depois você conta pra gente como é que foi.

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    * Publicado no blog: http://www.amalgama.blog.br/
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  4. My blog is carbon neutral

    3 de outubro de 2010

    Dessas ações que podem fazer alguma diferença no mundo, encontrei por esses dias um selo virtual para neutralizar a emissão de gás carbônico dos blog's espalhados pela web. A campanha é simples: Basta colocar o selo e enviar o link do blog para o site kaufda. A fundação planta uma árvore para o blog compensando o CO2 emitido. Bem legal!

    E-mail de resposta do "Make it green Team":

    Hi Gabriel,

    thank you so much for participating in our initiative and making your blog carbon neutral! We thank you for the support!

    Here you can find some news about the reforestation: http://www.kaufda.de/umwelt/carbon-neutral/forest-update/

    There are still some trees looking for a sponsor. So if you know some people who have a blog or website, pass it on and we'll make their blogs carbon neutral too!

    Best, Melanie
    "Make it green"-team
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  5. De dentro do vagão

    26 de setembro de 2010

    Andar de trem no Rio de Janeiro pode ser uma experiência interessante de observação. Várias realidades diferentes passam por você, por onde passa o trem. Às margens da ferrovia, os marginalizados se mostram e todos os tipos de pessoas, das mais diferentes raças, credos, condições sociais se misturam. Sempre que preciso andar reparo várias coisas. Dessa vez resolvi registrar.



    "Senhores passageiros. Cuidado com o vão entre o trem e a plataforma!", anuncia o auto-falante. Uma mulher vendendo doces com o filho recém-nascido no colo numa espécie de suporte “canguru” é uma imagem que deixa perplexo. Misturam-se revolta e admiração. Revolta pelas condições a que o subemprego submete seres humanos ali, aos nossos olhos. Admiração por essa mulher anônima que precisa se alimentar e ao filho (e talvez outros). Ela passa e oferece seu produto, sem se fazer de vítima, sem pedidos de esmola, simplesmente faz seu “trabalho”.

    Mais a frente, olhando pela janela, casas, praticamente em cima da linha, disputando espaço com o trem. Não dá pra saber se foram elas ou a linha férrea que chegou ali primeiro. As cidades têm pela frente o desafio de diminuir o déficit habitacional, não apenas construindo casas. Mas dando condições reais de habitação para milhares de pessoas. Li que a estimativa é de que no Rio o déficit é de 478 mil moradias. Mais ou menos 1.800.000 pessoas residindo em condições precárias. “E imaginem escutar o barulho infernal do trem passando dentro do seu quintal diariamente”, penso.

    "Próxima estação Deodoro, saída pelo lado direito". Do lado de dentro, um menino que deveria ter uns 8 ou 9 anos de idade passa vendendo picolé. Ele deveria estar na escola, fazendo o dever de casa ou brincando na rua à uma hora dessas – coisas que eu fazia na idade dele. Logo atrás dele outro menino, com a roupa puída, descalço e sujo, pede esmolas. A verdade é que essas crianças, por estarem nas ruas sem a tutela de uma família bem estruturada, estão sujeitas aos mais diversos riscos como exploração sexual, dependência de drogas, violência. Outra verdade é que elas muitas vezes estão fugindo dessas mesmas situações dentro de casa.



    Pela janela muros e fachadas exibem pixações. Desenhos obscenos, passagens bíblicas, siglas de facções criminosas, apelidos de “bandidos”, rabiscos sem sentido para quem vê e até mensagens políticas. Para a sociedade vandalismo puro. Para os pixadores, expressão, confronto direto com o poder público repressor, fragmento material da busca de prestígio e reconhecimento público – tentativa de sair do anonimato através de uma assinatura pública.

    Na próxima estação entra um homem bem vestido que faz a propaganda: “A chave de fenda que faz muito mais do que uma chave comum. Anula a corrente de eletricidade. Não permite que você leve choque. Ótima para arrumar aquele ferro de passar roupas estragado, ou aquela tomada enguiçada. Apenas 2 reais”. Várias pessoas compram. Ele repete a publicidade no final do vagão, enquanto o trem para em outra estação. Neste momento, fiscais da prefeitura à paisana se identificam e rendem o vendedor ambulante que é obrigado a descer do trem.

    Provavelmente ele terá seus produtos apreendidos. Prejuízo grande somado à multa que terá de pagar pela infração. No trem comentávamos uns com os outros. “Agora você vê. O cara estava só trabalhando...”, disse-me um desconhecido. Mais uma vez, um enorme desafio que os políticos eleitos daqui há alguns dias deveriam enfrentar de verdade. Porque aquele homem estava ali? Provavelmente porque lhe faltou um emprego que pagasse dignamente. A repressão da fiscalização é inútil se não for atacada a cerne do problema da informalidade.



    "Favor não ultrapassar a faixa amarela". Na volta pra casa o trem vai lotado. Pessoas se empurram para entrar e sair dos vagões escassos. Cadê a quantidade suficiente de trens para levar todo mundo pra casa com o mínimo de conforto que até um animal mereceria? Num dos bancos, dois homens desconhecidos dormem de boca aberta, um encostado no outro, numa cena engraçada. A proximidade que a lotação proporciona quase torna os passageiros amigos íntimos.

    Às margens da linha férrea, lixo por todos os lados – muito lixo. Como eu desceria na última das últimas estações, vi o que sobrou dos inúmeros doces e salgados, biscoitos e picolés, cervejas, refrigerantes e garrafas d’água compradas pelos passageiros durante a viagem. As latas de lixo nas portas vazias, e o chão repleto de embalagens. Falta de educação. Minha roupa amassada, meu corpo cansado. E eu me sentindo, como aquele vagão.
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  6. Centenários

    19 de setembro de 2010

    Pra não deixar passar em branco aqui n'O 'Vencedor. Um vídeo sobre os centenários de dois "filhos únicos" do samba: Noel e Adoniran. "Seu garçom faça o favor de me trazer depressa" umazinha pra comemorar.

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  7. Zeróis

    21 de agosto de 2010

    A exposição "Zeróis: Ziraldo na tela grande" é ótima. Tive a oportunidade de ir ver essa semana e valeu a pena. O cartoonista reúne o humor e a técnica única e inconfundível, fazendo rir e pensar "em cores" e, claro, onomatopeias. A mostra reúne 44 telas reproduzidas de desenhos feitos pelo artista a partir de 1964 , quando fizeram sucesso em jornais e revistas do mundo todo. Imaginem a cena: Batman e Robbin numa noite qualquer assistindo TV na sala. Ou então o que seria da noite da esposa de um super-herói quando o marido ficou o dia inteiro atrás de bandidos e super-vilões. Piada pronta. Quem puder, confira!











    Mais informações: Onde? Centro Cultural Banco do Brasil - Centro do Rio - 2º andar. Quando? Terça a domingo até 19 de setembro, das 9h às 21h. Quanto? Grátis.
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  8. Meus pés no chão

    6 de agosto de 2010

    Depois de tanto ir embora
    De tanta demora
    De tanta conversa a beira de um bar

    Depois de tanto samba
    Tanto andar na corda bamba
    Procurando abrigo e atenção
    Depois de tanta inquietação
    Tenho meus pés no chão

    Depois de tanto apanhar
    Um tanto bater, outro tanto chorar
    Tanto quanto aprender
    E portanto viver

    Depois de tentar encontrar
    Procurar sem achar
    Encontrar sem se ter
    Ter sem corresponder

    Depois de tanta andança
    Tanto amor de criança
    Tanta aventura, tanta paixão
    Tanto sim e tanto não

    Posso dizer: você é meus pés no chão
    Porque me faz querer ficar, quando antes era só ir embora.
    Porque, no entanto, ainda querer ir, embora agora
    Pra onde for, levar você
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  9. Nada, acima de tudo

    16 de julho de 2010

    "Nada, acima de tudo, se compara à vida nova que uma pessoa que reflete experimenta quando observa uma terra desconhecida. Apesar de eu ainda ser sempre eu mesmo, acredito que fui mudado até a medula de meus ossos." (Goethe, Viagens à Itália)
    Fechando o álbum de viagens:

    Os vitrais de uma igreja, Stocolmo.




    Berlim, a capital dos grafits




    Sinagoga (ao centro) localizada no "gueto" judeu em Praga (RT).
    Na lateral esquerda da foto, um muro erguido para sustentar o pequeno e único cemitério judeu aterrado por 400 anos.




    Berlim



    O Reich, Berlim



    Em uma igreja, símbolos da morte




    Estilo holandês, Amsterdam





    A escultura e o quadro: complemento










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  10. Existem mil e uma maneiras de se comemorar um aniversário. Minha maninha precisou escolher a mais radical delas para celebrar seus 25 anos. Eu não podia ficar fora da festa. E lá fomos: meu cunhado, meus irmãos e eu (para o desespero da mamãe)... 4 mil metros de altitude, velocidade de mais de 200 km/h em queda livre, pouco mais de 6 minutos de vôo, sensação indescritível, visual sem palavras. A experiência foi maravilhosa, até agora não acredito que fiz isso. Da minha lista de "10 coisas que quero fazer antes de morrer", mais um item ticado. Confiram aí o vídeo:

    "Pode acreditar, eu sei voar"

    Mais informações: http://www.brasilparaquedismo.com.br/

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  11. Se eu pudesse menino

    15 de maio de 2010

    Se eu pudesse menino, te renasceria.
    Te devolveria, com eu queria.
    Te veria viver
    Te retornaria de onde parou
    Mais amigos faria
    Namoraria, menino
    Noivaria, casaria, filhos teria
    Estudaria, trabalharia,
    Adoeceria, remediaria, pra trás olharia
    e só então, enfim, morreria.
    Se eu pudesse menino,
    queria o poder dos deuses: te reviveria.
    Mudaria o trajeto, tiraria seu pé do acelerador
    te usaria o cinto, desaceleraria aquele dia
    Dos seus pais, as lágrimas, enxugaria
    Lhes engoliria o choro, removeria a dor
    O jornal reescreveria, e nas manchetes leriam
    "Jovem vive". Nenhum exemplar venderia, fato.
    Mas a pena valeria, pra de novo te ver viver
    Se eu pudesse, menino, como eu queria
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  12. -idades do amor

    6 de maio de 2010

    Intensidade
    Amores passados
    Beijos roubados
    O novo amor
    Surpreendente conexão
    Hiperconectividade

    Desigualdade
    Gostos expostos
    Gostos opostos
    Gostos impostos
    Diversidade

    Adversidade
    Raiva intensa
    Diferença imensa
    Que deixa no chão
    Lágrima sem razão,
    Quem tem razão?

    Corpos entrelaçados
    Saliva trocada
    O gosto bom
    que o oposto tem
    Intimidade

    Cumplicidade
    Eu e você
    Você e eu
    Eu em você
    Você em mim
    Felicidade
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  13. Os “sem cultura”

    23 de abril de 2010

    Saindo de um evento de samba em comemoração ao Dia Nacional do Choro, ontem a noite, ouço em tom pejorativo a seguinte frase: “Muitas pessoas de cultura não vêm aqui”. Achei no mínimo pretensioso da parte dessa pessoa que não conheço, pra não dizer pedante.

    Afinal o que define uma pessoa “de cultura”? Será que aqueles que estavam num pagode, ou num baile funk são as pessoas “sem cultura” que não mereciam estar ali?

    Me senti até mal por estar num evento para pessoas “de cultura”. Esta é uma afirmação que só fazem os metidinhos a intelectuais que existem aos montes por aí. Me causa repulsa.

    Será que ele sabia que o choro surgiu, no século XVIII, de uma mescla da cultura erudita da época -entre elas a valsa européia - com ritmos africanos? Muitas das pessoas “de cultura” daquele período torciam o nariz para o que acreditavam ser uma vulgarização cultural.

    E o samba que era a música popular dos morros do Rio - o que hoje equivaleria ao funk em termos de popularidade. Imaginem só, daqui há uns 50 anos, um evento “de cultura” que toque o funkadão “de raiz”. O grande sambista Ataulfo Alves, em parceria com Wilson Batista, cantou em 1940: "não posso mais, eu quero é viver na orgia". Quantas letras do famigerado funk não querem dizer a mesmíssima coisa?

    Não estou querendo misturar "alhos com bugalhos" e nem discutindo aqui o gosto musical de ninguém. Não gosto, por exemplo, de funk (mas também, como muitas pessoas que se dizem “de cultura”, não consigo deixar de me mexer quando toca o “batidão”). Gosto menos ainda, porém, de quem menospreza uma autêntica manifestação cultural, seja ela qual for.

    Músicos considerados “de cultura” gravaram os “sem cultura”, e a coisa se tornou “cult” da noite pro dia. Adriana Calcanhoto, por exemplo, gravou Claudinho e Buchecha (que eu já confessei a uma amiga gostar muito), e muita gente que torcia o nariz passou a cantar.

    A mais nova “cult” das paradas, Maria Gadú, pode ter transformado em clássico da MPB (?), a clássica “sem cultura” Baba Baby, da Kelly Key.

    Marisa Monte, a cantora de MPBs, Sambas, Choros e Bossas Novas, ao cantar “jujuba, goiabada, sorvete”, não soa tão diferente da Xuxa cantando “hoje vai ter uma festa, bolo e guaraná muitos doces pra você”. Só pra citar alguns exemplos.

    Por isso hoje, mais do que nunca, quero deixar aqui o meu protesto: Abaixo ao preconceito musical! Abaixo à hipocrisia cultural!
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  14. Faltam 12 dias

    27 de março de 2010

    Na Copa todo brasileiro vira torcedor (até eu que não gosto muito de futebol).



    http://copa2010.ig.com.br/
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  15. Álbum da Viagem, parte 3

    21 de março de 2010



    Memorial às vítimas do holocausto

    A história deixou suas marcas. Nas pixações de uma parede em Berlin, o passado que todos de lá parecem querer superar.



    As bicicletas na Europa são cada vez mais uma opção de transporte.


    Berlin, Alemanha




    Numa igreja destruída por bombardeios durante a II Gerra, no centro de Berlin, uma parte do piso ficou intacta.

    Por do Sol em Estocolmo, Suécia

    O pássaro, a estátua e as casas (Estocolmo)








    Troca da Guarda, Estocolmo









    Pombos "superdesenvolvidos", Estocolmo
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  16. Por falar em amizade...

    9 de março de 2010

    Amizade que é amizade
    Real, rima com verdade
    Leal, rima com fidelidade
    Íntima, rima com intimidade

    Amizade é conversa fiada, conversa afiada
    Cheia de afinidades - afinada
    Ou simplesmente não falar nada

    Amizade é ombro, é colo, é olho no olho,
    Mão estendida, pé na estrada contigo
    É abraço apertado, beijo no rosto, sorriso estampado

    É uma presença constante, mesmo distante
    Que quando se vê, parece que foi ontem

    Amizade é o tal tesouro encontrado, anunciou o profeta
    É a força que reaproxima quem um dia se afastou, comprovou o físico
    É pra sentir, não pra dizer, registrou uma vez o escritor
    E como diria o poeta: amizade que é amizade acredita na tua verdade e aponta a realidade


    Referências: Einstein, Machado de Assis, Eclesiastes, Zélia Duncan e Chico César (na música Esporte fino confortável).
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  17. Fim de semana

    22 de fevereiro de 2010

    Se encontra no fim de semana. Espera vir a sexta-feira. Vive o sábado inteiro como se o sétimo dia fossem na verdade sete. Não dorme nem sexta, nem tampouco sábado. Atravessa 24 horas de fim de semana. Vez ou outra um feriado: amor de fim de semana prolongado. O domingo é o fim. O fim! Antes de acabar é o início de uma nova espera. Segunda, terça-feira, lembrança do fim de semana. Pelo telefone, expectativa quarta, quinta-feira. Veio a sexta-feira e trouxe com ela, de novo, o amor de fim de semana.
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